Justiça

Facão que "deslizou": réu mantém versão fantasiosa em audiência sobre feminicídio que chocou Costa Rica

Juliano Oliveira insiste que morte de Rose Antonia foi acidental. Advogado da família rebate com provas robustas e cobra que Justiça leve acusado ao Tribunal do Júri

A cidade de Costa Rica/MS não pode esquecer. Não pode permitir que mais um caso de feminicídio vire estatística silenciosa nos corredores do Judiciário. Na tarde de segunda-feira (2), foi realizada a audiência de instrução do processo que investiga a morte brutal de Rose Antonia de Paula, 41 anos, morta com um golpe de facão no pescoço na noite de 27 de junho de 2025, dentro de uma quitinete no bairro Vale do Amanhecer.

No banco dos réus, Juliano Pinheiro de Oliveira, 40 anos, ex-namorado da vítima. Diante do juiz, das testemunhas e do Ministério Público, ele manteve a mesma versão apresentada desde o interrogatório policial: tudo teria sido um "acidente". Segundo ele, durante uma suposta briga, o facão — que ele admite ter empunhado — "deslizou" e atingiu o pescoço de Rose.

A narrativa soa tão improvável quanto ofensiva. Rose não foi vítima de um deslize. Rose foi vítima de violência.

Provas
A denúncia do Ministério Público é clara: Juliano matou Rose por feminicídio, em contexto de violência doméstica, valendo-se de recurso que dificultou a defesa da vítima — um facão, desferido contra uma mulher desarmada, em local fechado, sem chance de fuga. Além disso, Rose era mãe e responsável por uma criança de 11 anos, que já havia sido vítima de suposto estupro de vulnerável pelo próprio acusado em 2023.

O crime foi premeditado? As provas sugerem que sim. Testemunhas relataram que, horas antes do crime, Juliano foi visto afiando um facão. Rose estava em Costa Rica havia apenas uma semana, vinda de Bonito/MS, onde morava. Tudo indica que o relacionamento era marcado por ciclos de violência: em 2022, Rose registrou dois boletins de ocorrência contra Juliano por lesão corporal e ameaça.

Após o crime, o acusado fugiu. Passou a noite escondido no mato, próximo à usina de cana-de-açúcar. No dia seguinte, foi até o irmão, que o levou para uma fazenda em Alcinópolis/MS. Só foi preso dias depois.

Dentro da quitinete, peritos encontraram o corpo de Rose em meio a uma poça de sangue, com ferimento gravíssimo no pescoço. O facão estava guardado na bainha, ao lado dela. Havia também um crucifixo sobre a cama — um detalhe que levanta questionamentos sobre uma possível tentativa de "cenografia" pós-crime.

Advogado Lucas Arguelho Rocha, assistente de acusação (Foto: Arquivo/Pessal)

A Justiça não pode falhar
Quem acompanha o caso de perto é o advogado Lucas Arguelho Rocha, assistente de acusação que representa os familiares de Rose, todos residentes em Bonito. Em nota enviada à imprensa, ele foi categórico:

"Tenho plena confiança na Justiça e reitero minha convicção de que o robusto conjunto de provas testemunhais e processuais apresentadas nos autos conduzirá, de forma inequívoca, à pronúncia do réu para julgamento perante o Tribunal do Júri."

Lucas Rocha destaca que a versão apresentada por Juliano é facilmente desmentida pelos laudos periciais, depoimentos de testemunhas e pela própria dinâmica do crime. Segundo ele, o golpe não foi acidental — foi fatal, direcionado, violento. "A sociedade de Costa Rica, por meio do Conselho de Sentença, exercerá sua soberania e condenará o réu, dando assim uma efetiva resposta à sociedade e aos familiares, que são todos de Bonito", afirmou o advogado.

Com o encerramento das audiências de instrução, o processo entra agora na fase de alegações finais. Tanto a defesa quanto a acusação terão prazo para apresentar suas teses por escrito. Depois disso, caberá ao juiz decidir se Juliano Pinheiro de Oliveira será ou não pronunciado — ou seja, se irá a julgamento pelo Tribunal do Júri.

Caso seja pronunciado, ele responderá por feminicídio qualificado, com penas que podem ultrapassar 30 anos de prisão. O crime é considerado hediondo e inafiançável.

Mas até lá, é preciso que a sociedade de Costa Rica não desvie o olhar.

Por que este caso importa?
Rose Antonia de Paula não era um nome nas páginas policiais. Era mãe. Era filha. Era mulher. Trabalhava como auxiliar de cozinha e lutava para reconstruir a vida longe do homem que, segundo a acusação, a matou.

Este não é um caso isolado. É mais um capítulo da tragédia cotidiana da violência de gênero no Brasil, onde uma mulher é morta a cada seis horas por feminicídio. Rose tinha histórico de agressões, havia denunciado, havia tentado se proteger. E ainda assim, foi morta.

A filha de Rose, hoje com 11 anos, crescerá sem a mãe. A família, que vive em Bonito, acompanha cada passo do processo com a esperança de que a Justiça seja feita. Eles não estão sozinhos. A sociedade de Costa Rica precisa estar ao lado deles — acompanhando, cobrando, lembrando.

Porque esquecer é permitir que a impunidade silencie mais uma voz feminina.

O grito que não pode ser calado!
Que a memória de Rose Antonia de Paula não seja apagada pelo tempo. Que o Tribunal do Júri de Costa Rica, quando chegar a hora, olhe nos olhos dessa história e faça justiça. Que a sociedade não normalize a violência. Que nenhuma mulher precise morrer para ser ouvida.

Rose merece justiça. E Costa Rica merece ser uma cidade onde mulheres possam viver sem medo.

Se você ou alguém que você conhece está em situação de violência doméstica, denuncie:  
Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher;  
Ligue 190 — Polícia Militar;  
Delegacia da Mulher de Costa Rica: (67) 3247-6500.